Richard Simonetti - Doadores De Vida

                                           DOADORES DE VIDA

Richard Simonetti

richarsimonetti@uol.com.br

 

 

  Célio Timbira entrou vacilante na agência bancária. Era sempre com uma sensação de pânico que voltava ao serviço, em sucessivas licenças-saúde.

  Os médicos diagnosticavam o mal: neurose depressiva, que se manifestava particularmente numa profunda insegurança em relação às suas atividades profissionais. Gostava do Banco, relacionava-se bem com os colegas... Entretanto, experimentava insuperável mal-estar, presa de indefiníveis angústias. Os afastamentos totalizavam cinco anos, configurando cronicidade.

   Seus superiores o aconselhavam, frequentemente, à aposentadoria por invalidez. Era o que mais o perturbava. Não se considerava incapaz. Desejava trabalhar e vislumbrava nessas orientações a mera intenção de se livrarem dele, como de um peso morto a ocupar o lugar de alguém em melhores condições.

   Desta vez, nutria nova esperança. Conseguira transferência e era em outra agência que estava se apresentando, a contar com a torcida de seus familiares e amigos.

  O encarregado do pessoal o recebeu com simpatia. Não obstante, o bancário estava terrivelmente tenso.       Certamente já lera sua fé-de-ofício, tomando conhecimento de seus problemas de saúde. No entanto, ele nada comentou, limitando-se a encaminhá-lo para o setor onde serviria.

   Célio esforçou-se por superar a velha insegurança. Concentrou-se nas tarefas e viu escoarem-se, menos angustiantes, as horas que compunham o expediente.

  No final da tarde, foi chamado à gerência. Não havia surpresa. Até adivinhava a cantilena: deveria esforçar-se por superar seus problemas, a fim de não prejudicar a si mesmo e ao Banco.

  O gerente o cumprimentou gentil, acentuando:

  — Meu caro Célio, tenho conhecimento de suas dificuldades e avalio quanto deve ter sofrido nessa sucessão interminável de licenças-saúde.

  Fazendo-se forte, o bancário tenta contornar a situação, evitando o constrangimento da admoestação que, como bem conhecia, vinha sempre precedida de amenidades, e diz, sem muita convicção:

  — Não se preocupe, senhor gerente. Estou animado e bem consciente de minha situação. Não pretendo perder nenhum dia de serviço.

  — Gostei de ouvir isso, meu rapaz! É preciso acabar com esses

afastamentos que complicam sua carreira!...

  "Oh! Meu Deus! Se me pressiona não vou conseguir!" — proclama Célio em desespero, na intimidade de si mesmo.

  — Façamos o seguinte: você virá diariamente à agência e assinará o ponto, garantindo o dia. Depois, trabalhará durante o tempo que julgar conveniente. Somente completará o expediente de seis horas se sentir-se em condições. Caso contrário, reduza a jornada para cinco, quatro, três, duas, uma hora... Seu compromisso será apenas com o ponto. Quanto ao mais, não se preocupe. Faça o que puder...

  Célio tinha os olhos marejados de lágrimas. Jamais poderia conceber tão generosa concessão. Julgara receber reprimendas antecipadas e era presenteado com a liberdade plena. Ensaiou agrade-cimentos, extremamente sensibilizado...

   * Não agradeça, meu filho. Estou apenas cumprindo o dever de ajudar um companheiro em dificuldade.

   O bancário deixou a gerência com desconhecida sensação de leveza e bem-estar, disposto, como nunca, a superar suas dificuldades. E jamais se prevaleceu da concessão que lhe fora feita, cumprindo integralmente suas jornadas de trabalho e superando, em definitivo, o círculo vicioso das licenças-saúde. A generosidade do gerente devolvera-lhe a confiança em si mesmo.

* * *

   Há uma permanente interação entre as criaturas humanas. Influenciamo-nos uns aos outros com pensamentos, palavras, ações...

   Por isso, há os agentes da Morte, que aniquilam esperanças e aspirações, brandindo o látego da crítica ferina, do pessimismo, da agressividade, do desrespeito, mas há, também, abençoados doadores da Vida, que estimulam o crescimento do semelhante com manifestações de bondade, compreensão, otimismo e confiança.