Richard Simonetti- Não mandem Gravatas

                              NÃO MANDEM GRAVATAS!

Richard Simonetti

richardsimonetti@uol.com.br

 

   Nos idos de sessenta, século passado, já eram concorridas as sessões públicas do Centro Espírita Amor e Caridade, em Bauru. Ontem, como hoje, uma motivação básica: a procura de auxilio para males do corpo e da alma. Embora a racionalidade que caracteriza o Espiritismo, um contato com o Céu de pés firmes na Terra, as pessoas insistem em ver na doutrina codificada por Allan Kardec o apelo ao sobrenatural, sonhando prodígios em favor de sua saúde e bem-estar.

   Tardam em compreender que o melhor benefício que devemos buscar no Centro Espírita é o esclarecimento quanto aos objetivos da jornada humana, o que estamos fazendo neste “vale de lágrimas”, de onde viemos e para onde vamos.

   A par do consolo que oferece, o Espiritismo explica que os males que nos afligem são decorrentes de nossas mazelas, inspiradas no velho egoísmo humano. Portanto, é preciso dar-lhe o contra veneno: a caridade.

   Embora seja muito mais que a simples doação de algo de nossa propriedade, é a primeira idéia que nos acode quando cogitamos em exercitá-la.

   E porque os Centros Espíritas situam-se como postos avançados nos domínios da solidariedade, atendendo multidões de carentes, somos sempre convocados a contribuir para a sustentação de seus abençoados serviços.

   Alguns dos apelos nesse sentido, que eu ouvia, ainda jovem, nas reuniões públicas do CEAC, fixaram-se em minha memória, por sua bem-humorada singularidade.

   – Meus amigos – dizia o dirigente –, tudo o que puderem enviar será muito bem aproveitado – gêneros alimentícios, eletrodomésticos, móveis, utensílios, roupas... Pedimos, porém, encarecidamente, atentarem à utilidade do que oferecem. Muita gente nos manda gravatas. Para quê? Pobre não usa gravata. Só se for para enforcar-se…

   Hoje, como ontem, a Doutrina Espírita enfatiza a mesma necessidade de exercitarmos desprendimento. É preciso contribuir

para a melhoria das condições de vida de multidões que vivem abaixo da linha da pobreza.

   As instituições já não recebem gravatas velhas, algo supérfluo na atualidade, destinado a ocasiões cerimoniosas. Não obstante, acontece pior. Muita gente imagina que pratica a caridade doando o que ficaria melhor no monturo.

   Ao avaliar velhos trastes, em face de faxina, reforma ou mudança, o imprestável é piedosamente remetido às instituições filantrópicas. Se a “vítima” escolhida conta com um serviço de recolhimento domiciliar, fica perfeito. É só telefonar e a viatura vem buscar o entulho, evitando despesas para livrar-se dele.

   É incrível, leitor amigo, mas, infelizmente, metade das doações recebidas constitui material imprestável! Alguns exemplos:

Vetustos aparelhos elétricos. Ficariam bem em museus…

Roupas bolorentas e rotas. Nem para pano de chão…

Carcomidos sapatos, sem o par. Para pernetas?…

Medicamentos vencidos. Impulso homicida?…

Móveis imprestáveis. Só em cenário de bombardeio…

Colchões desconjuntados e encardidos. Para faquires?…

Carcaças de brinquedos. Estímulo à imaginação?…

Cereais carunchados. Coisa de terrorista…

    É só o trabalho de recolher e jogar fora, o que demanda esforço dos voluntários e do motorista, gasto de gasolina, tempo perdido.

   Permita-me, prezado leitor, definir uma regra básica que devemos observar quando nos dispomos a atender aos apelos da solidariedade.

   Usaríamos sem constrangimento o que vamos doar?

   Se não serve para nós, por que haverá de servir para alguém? Se passível de conserto ou limpeza, tomemos a iniciativa, antes de doar.

   Sempre que possível, levemos pessoalmente nosso donativo, tomando contato com a instituição beneficiada, conhecendo seus serviços, suas carências…

Então, sim, estaremos exercitando a caridade, o bem que praticamos quando nos desprendemos de utilidades, deixando as inutilidades para os agentes de limpeza.