Sidney Fernandes - Promessas e estelionatos

Promessas e estelionatos

Sidney Fernandes

1948@uol.com.br

Não desprezes o dom que há em ti.

Paulo, I Timóteo, 4:14

Diz Emmanuel que, a partir do momento em que já portamos alguma luz, adquirimos a responsabilidade de expandi-la. Na espiritualidade, compreendemos a extensão das imperfeições que ainda nos privam da felicidade e pedimos nova encarnação.                                                                                                                      

                                        Prometemos! Juramos de pés juntos que dessa vez nos aprumaremos. Chegando ao plano terrestre, o amontoado de promessas e ansiedades não se converte em realizações espirituais. Alerta André Luiz quea edificação do reino interior não se realiza só com palavras e exige trabalho persistente e sereno.                                                    

          Costumamos chamar de estelionatário o que promete, mas não cumpre, assume compromisso e dele foge ou ainda o que acena com vantagem e somente cuida de seus interesses. Ora, não nos enquadramos exatamente nessas condições ao participarmos de complexo planejamento, que conta com a participação e o patrocínio de parentes, amigos e mentores desencarnados e, ao contato com a realidade terrestre, dele nos distanciarmos? Não nos enquadraríamos exatamente na condição de estelionatários?                  

      Não desprezes o dom que há em ti, alerta-nos Paulo. O conhecimento aumenta a nossa responsabilidade, principalmente diante da mensagem renovadora do Espiritismo.

Retornamos ao velho círculo vicioso citado por André Luiz, em Missionários da Luz quando, fora do âmbito terrestre, diante de nossas necessidades cármicas, prometemos fidelidade e realização, mas, logo que reencarnamos, esquecemo-nos dessas promessas, voltamos ao endurecimento espiritual e ao menosprezo às leis de Deus.                  

              Precisamos entender, definitivamente, que uma nova encarnação não é uma aventura, nem nos move o acaso ou a vontade aleatória do Criador. Ela faz parte de um contexto global em que estamos inseridos, obedecendo a um planejamento evolutivo que, no mais das vezes, contou com nossa anuência e compromisso.                              

             Como afirmou o abolicionista americano Wendell Phillips, a eterna vigilância é o preço da liberdade. O mesmo se aplicará às promessas que fizemos na espiritualidade, se não quisermos perder a atual encarnação. O sucesso do nosso presente projeto de vida dependerá de vigilância e persistência.                                      

                                        Moisés, Paulo de Tarso, Albert Schweitzer, Oskar Schindler, Zilda Arns, só para citar os mais conhecidos, renunciaram ao conforto, à segurança e à própria vida. Como entender, aos olhos humanos, o comportamento dessas criaturas, dentre muitas outras que se destacam na história da civilização?                                                                    

        O que elas têm em comum? Todas essas pessoas perguntaram-se se poderiam continuar em suas situações de conforto e segurança, enquanto milhares não tinham direito à mínima condição de sobrevivência. Prometeram e cumpriram suas promessas e vivenciaram o seu profundo amor pela humanidade.                                  

                               A maioria de nós talvez ainda não esteja preparada para esses rasgos de desprendimento, em favor de causas universais. Com certeza estamos, todavia, habilitados a superar nossos interesses próprios, ensaiando desprendimento e respondendo pelas responsabilidades que assumimos perante o plano maior.

Prometemos? Cumpramos! Ou vamos, mais uma vez, retornar à espiritualidade como meros estelionatários, como já fizemos tantas vezes?