2ª parte- Atrasados, primitivos ou degenerados?

 

 

Atrasados, primitivos ou degenerados? 

Sidney Fernandes

1948@uol.com.br

 

Ele era um dos melhores médicos da região. Obstetra, sempre representou a segurança e importante recurso para prover cuidados de saúde a um sem número de parturientes, recém-nascidos e familiares. Durante muitos anos promoveu e preservou a normalidade do processo de nascimento de uma grande parte da população daquela pequena cidade, atendendo suas necessidades físicas e emocionais.

Honrado e de bom coração, não se importava com a situação financeira ou posição social de suas pacientes. Tratava todas com a mesma eficiência, carinho e competência. A cidade inteira o amava e o respeitava.

Foi realmente com muita surpresa e pesar que, depois de vinte anos de trabalho em favor da comunidade, o competente médico veio a sofrer um acidente vascular isquêmico, também chamado de derrame, com severo dano cerebral. O bom facultativo entrou em estado vegetativo persistente, aparentemente sem consciência. Permaneceu assim por mais de vinte anos, sob a vigilância e tratamento constante de familiares e assistentes especializados.

Pessoas nessa situação podem parecer acordadas e ter algum reflexo. Diz a ciência que não. Elas não teriam consciência do ambiente que as cercam. As aparências indicariam uma parada completa do desenvolvimento de todo o sistema orgânico.

E seu Espírito, como estaria?

***

Os familiares espíritas jamais deixaram de orar e pedir aos mentores espirituais que aliviassem e amparassem o doente querido, ao mesmo tempo que buscavam forças, paciência e resignação.

Certa feita, estava a família numa reunião mediúnica, quando se manifestou o dirigente espiritual:

— Como posso ajudá-los, caros irmãos?

— Podemos ter notícias do Espírito do nosso pai? Encontra-se ele em estado de dormência, assim como o seu corpo? — perguntou prudentemente uma das filhas do médico em estado de coma.

— Sua alma prende-se ao corpo por laços materiais, não, porém, por laços espirituais, que sempre podem ser afrouxados. Gostaria de falar com ele?

A filha surpreendeu-se com a resposta. Imediatamente aproximaram-se seus dois irmãos, que também se encontravam no recinto.

— Isso seria possível? — indagou a filha emocionada.

— Desde que revestida de respeito, bons sentimentos e muita cautela, a comunicação será possível. Sugiro que o diálogo seja realizado pelo nosso irmão dirigente dos trabalhos, para que a emoção dos familiares não turve o seu conteúdo.

 O amigo tem consciência de seu estado atual? — começou o dirigente.

—Sem dúvida! — respondeu o comunicante — Sou um pobre Espírito preso à Terra como uma ave por uma pata.

— Consegue o irmão ter alguma consciência da atenção, das conversas e das orações de seus familiares?

— Não com a plenitude de minha consciência como agora. O carinho de meus queridos, porém, jamais me passa despercebido.  O atual estado de meus órgãos impossibilita a livre manifestação dos meus pensamentos, porém, não os aniquilam.

— Tendo tido uma existência profícua, dedicada à saúde e à minimização das dores de inúmeras criaturas, por que razão o irmão encontra-se nesse atual estado de inconsciência?

  — Por causa de minhas existências precedentes. Não por acaso, pedi a Deus que me colocasse nesta situação, prevista desde antes do meu nascimento. E o que é a duração de uma existência perante a eternidade? Certamente, tentei agir da melhor maneira possível durante o tempo que me foi disponibilizado. O meu sofrimento atual, no entanto, foi por mim aceito antes de reentrar na humanidade.

— O caro irmão tem ideia do tempo que ainda permanecerá conosco?

— Diga aos meus filhos que minha prova dolorosa está se findando. Que jamais deixem de orar por mim e que sou muito grato pelo cuidado que estão tendo com o meu corpo. Agradeço muito as demonstrações de carinho e reconhecimento que todos têm comigo.

Com efeito, poucos dias depois desse diálogo, o bom médico desencarnou. A comunicação, com a presença dos filhos, foi a sua despedida, antes de partir para a libertação da espiritualidade.

***

— Que é o culpado? Aquele que por um desvio, por um falso movimento da alma, se distancia do objetivo da criação.

—Que é o castigo? A consequência natural, derivada desse falso movimento.

Paulo, o apóstolo, em O Livro dos Espíritos.

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Alguns Espíritos ficam aprisionados em seus corpos, por iniciativa própria, ou por expiação, em decorrência do mau uso que fizeram de suas faculdades. Não podem exprimir seus pensamentos. Esse mutismo é uma das mais difíceis punições terrestres. Frequentemente ela é escolhida por Espíritos arrependidos que querem resgatar suas faltas. Em muitas ocasiões podem ver e ouvir o que se passa ao seu redor, sem poder, todavia, se exprimir.

Com o progresso da ciência e com a evolução das criaturas, essa situação poderá se tornar cada vez mais rara. A tendência é de que as punições passem a ser de caráter moral. Seguirão o ciclo de progresso que, mais cedo ou mais tarde, envolverá o planeta Terra, que um dia irá se tornar a morada da felicidade.

 

– continua na terceira parte –