3ª parte- Atrasados, primitivos ou degenerados?

 

 

Atrasados, primitivos ou degenerados? 

 

Sidney Fernandes

1948@uol.com.br

 

 

Década de setenta, século vinte. Jovem professor universitário surpreende um de seus alunos em atitude de fraude. Recolhe sua prova, anulando-a. Ocorre que o aluno que foi pego colando era um industrial de muito poder e dinheiro. Ele formalizou reclamação contra o professor, acusando-o de perseguição e autoritarismo. Diante dessas pressões, a direção da faculdade afastou o jovem mestre de suas funções.

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Quarenta anos mais tarde.

A poderosa empresa do outrora aluno faltoso encontra-se em sérias dificuldades. Um juiz de direito determina que o proprietário compareça ao fórum para apresentar um plano de recuperação judicial, para evitar a falência do seu negócio. Oh destino caprichoso… Quem o antigo aluno encontra na audiência em que foi tentar salvar suas empresas?

Acertará o caro leitor se disser que ali estava o outrora jovem mestre, que o inescrupuloso empresário havia prejudicado e alijado de sua carreira de professor universitário. Mesmo transcorridas mais de quatro décadas, os dois se reconhecem imediatamente. Um erro cometido mantém a nossa consciência pesada por tempo indeterminado. O algoz abaixa a cabeça perante a vítima que tanto prejudicara, esperando o pior.

Nosso amigo professor, hoje juiz, bem que sofreu muito depois da injustiça que lhe foi imposta, principalmente por ter ocorrido dentro de uma instituição que se propõe a ensinar a justiça. No entanto, apegou-se à religião espírita e a uma frase do escritor e poeta argentino Jorge Luis Borges que diz:

Eu não falo de vingança, nem de perdão. O esquecimento é a única vingança e o único perdão.

E felizmente, para o seu próprio bem, o magistrado esqueceu e perdoou. De atitude serena, com a consciência tranquila, cuida do caso de maneira imparcial, como faria com qualquer outro.

Aceita o plano de recuperação proposto pelo empresário, traça normas que devem ser seguidas, de acordo com a legislação. Dá-lhe alento e uma nova oportunidade para superação da crise econômico-financeira.

Além de demonstrar total esquecimento e perdão do passado, o consciencioso juiz teve por objetivo manter a fonte produtora, o emprego dos seus trabalhadores, os interesses dos credores vinculados à empresa, bem como sua função social e o estímulo à atividade econômica.

O industrial reconhece a atitude nobre e isenta daquele que, por tantos anos, considerara como provável inimigo, pela inominável falta que ficara martelando em sua cabeça, contra ele cometida. Dirige um olhar de agradecimento ao magistrado, que se mantém sereno e discreto.

Infelizmente, por suas próprias falhas e descumprimento do plano proposto, um ano depois a empresa teve sua falência definitivamente decretada por outro juiz que, pela ausência de condições jurídicas e econômicas para nova tentativa de recuperação judicial, considerou-a irrecuperável.

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Nos dois primeiros casos apresentados nesta sequência de artigos temos provas e expiações de vidas anteriores. Neste terceiro as consequências se originaram, em sua maior parte, na atual vida. Muitas das nossas aflições originam-se do nosso caráter e dos nossos procedimentos desta encarnação.

As causas podem estar no passado. Não necessariamente no passado de 200 ou 300 anos e sim em nossa infância ou em nossa juventude. Às vezes estamos sofrendo as consequências de um passado da semana passada, pois a vida é uma ininterrupta semeadura, com sua respectiva colheita.

Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição! — diz Allan Kardec no capítulo V, de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Não poderá o homem, nessas circunstâncias, como habitualmente faz, culpar a sorte, a divindade ou a própria vida, senão a si mesmo, pois ele é o próprio causador de seus infortúnios. Daí se conclui, portanto, que nenhum desrespeito às regras divinas ficará sem reprimenda. Apostar na impunidade, como sói acontecer com portadores de alto nível intelectual, será retardar a felicidade futura.

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Finalmente, cabe-nos analisar o comportamento do juiz, que mesmo diante da possibilidade de vingar-se do empresário que tanto lhe fez mal no início de sua carreira, agiu de forma digna e exemplar.

A Doutrina Espírita foi a responsável por essa tomada de posição, porquanto ela muda inteiramente a maneira de encararmos as ofensas e o futuro de nossas vidas. O mundo espiritual nos é oferecido com toda a sua grandiosidade. Daí as grandes transformações que se operam naqueles que levam a sério o Espiritismo.

Quem conserva mágoa e ressentimento está tomando veneno, na expectativa de que o outro morra. O mal que nos ocorre não se deve aos prejuízos material e moral que outros nos causam. Nossos desconfortos decorrem, no mais das vezes, dos sentimentos negativos, do ódio, do rancor e do desejo de vingança. Dar-lhes guarida em nosso íntimo somente nos traz prejuízo e inquietação.

O rancor que nos impele à vingança tira a nossa paz. Provoca também imantação entre nós e os nossos verdugos, sujeitando-nos às suas ferozes perseguições. Quanto maior o ódio, maior o sofrimento, maiores centralizações de mentes que se propõem ao revide.

A perseguição do obsessor pode fazer mais mal a ele próprio do que ao seu perseguido. Quando a atual vítima se apega ao bem, o perseguidor passa a malhar em ferro frio, pois agora ela conta com a proteção de Deus.

Na dimensão dos encarnados ocorre da mesma forma. Quando sofremos algum mal e nos tornamos odientos e vibramos contra os nossos desafetos, passamos a nos sujeitar a desequilíbrios, doenças e males crônicos, sem mencionarmos as desagradáveis companhias espirituais que elegemos. Daí, como diria minha mãe, alegaremos que a cigana nos enganou, ignorando que, ao semearmos ventos, estaremos colhendo decepções.

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Com o passar dos anos, depois de muitos murros em pontas de facas, passamos a entender claramente porque Jesus tanto insistiu no perdão. Ao contrário do que imaginávamos, o perdão não é um favor para os que nos agrediram. Ao lado do esquecimento, ele é oportunidade abençoada de libertação do detrator, que deverá se entender diretamente com a justiça divina.

Da nossa parte, cuidemos da própria vida e, se possível, oremos para que eventuais desafetos reencontrem o equilíbrio, a paz e a aproximação com as leis divinas.

 

– continua da quarta parte – última –