Sidney Fernandes - O que levamos desta vida?

O QUE LEVAMOS DESTA VIDA?

Sidney Fernandes

1948@uol.com.br

Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
Mateus 5:20

Todavia, se a morte é apenas uma mudança de morada, a passagem para o lugar onde os mortos se têm de reunir, que felicidade a de encontrarmos lá aqueles a quem conhecemos!

Sócrates, perante os seus juízes

A alma nada leva consigo deste mundo? — pergunta Allan Kardec na questão 150-b, de O Livro dos Espíritos.

— Nada, a não ser a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor, lembrança cheia de doçura ou de amargor, conforme o uso que ela fez da vida. Quanto mais pura for, melhor compreenderá a futilidade do que deixa na Terra.

Como já antevia a sabedoria intuitiva de Sócrates, dependendo do uso que fazemos da vida, poderemos ser recebidos na espiritualidade por bons amigos que nos antecederam na grande viagem, que nos ajudarão a nos desligarmos das faixas da matéria. Teremos ainda a oportunidade de nos reencontrarmos com aqueles que aqui conhecemos e a de visitar a quem devotávamos nossa afeição.

Há, no entanto, criaturas que passam por perturbações. Embora o conhecimento do Espiritismo possa amenizar ou reduzir o tempo dessas inquietações, o que vai ser considerado mesmo, em última instância, será o bem que praticamos e a pureza ou o comprometimento da nossa consciência.

O que estamos fazendo, na vida, em favor de nós mesmos?

Descreve Allan Kardec, no livro O Céu e o Inferno, a experiência vivida pelo Senhor Félicien. Ele era um homem estabilizado, instruído, espirituoso, de bom caráter e de perfeita honorabilidade. Passou por situação difícil, que acabou por comprometer o seu conforto e a sua posição social. Sentiu-se desencorajado e sem forças para restabelecer suas reservas. Pôs fim à própria vida em dezembro de 1864.

Não era materialista, nem ateu, apenas um homem comum, de humor um pouco leviano, porém sem cuidados com a vida futura.

Agora eu só tenho necessidade de preces; orai principalmente para que eu fique livre das horríveis companhias que estão perto de mim e que me obsidiam com seus risos, seus gritos e suas zombarias infernais. Eles me chamam covarde e têm razão; é covardia deixar a vida. Eis que várias vezes sucumbo a esta prova. No entanto, eu havia prometido a mim mesmo não falhar…

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Félicien havia sucumbido várias vezes à tentação do suicídio. E essa prova se renovaria a cada nova existência, até que ele conseguisse superar a si mesmo e atingisse o objetivo de aperfeiçoamento buscado nas reencarnações.

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Quando não atingimos o propósito para o qual reencarnamos, voltamos tantas vezes quantas forem necessárias para que ele seja alcançado. E quando, como Félicien, dispomos das condições necessárias e as desperdiçamos, elas se tornam mais distantes e raras nas experiências seguintes.

Por outro lado, esse depoimento, caro leitor, demonstra que, em vez da condenação eterna, Deus nos oferece, a cada nova encarnação, os meios para reparar nossas faltas.

 

Mirai a bondade de Deus que, em vez de vos condenar de forma irremissível sobre uma primeira falta, vos oferece continuamente os meios de repará-la. Portanto, sofrereis, não eternamente, mas pelo tempo em que a reparação não houver acontecido.

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O que tenho feito de minha vida? Estou a cada dia mais otimista, menos egoísta e me preocupando mais com a minha renovação interior? Ou estou desperdiçando os talentos e as condições com que Deus me presenteou?

As respostas as essas indagações, leitor amigo, indicarão o que estamos fazendo da presente existência e, naturalmente, como seremos recebidos no plano espiritual.